O MERGULHO
Teríamos apanhado muito. Naqueles dias as condições meteorológicas eram sedutoras a um passeio pelos bairros vizinhos, pela conurbação. Nosso pai costumava acionar os filhos para a caminhada. Em uma cidade pequena do interior as distâncias se faziam em léguas quando eram feitas em mulas e éguas. O horizonte sempre apresentava novidades. Uma casa de joão de barro, uma pinguela, uma porteira, um ipê florido, uma palmeira carregada de coquinhos amarelos, um cruzeiro, a repetidora de sinais da televisora, a serra de Prados ao longe..
Naquele dia específico estavam sem a escolta do pai, livres em determinar os alcances e direções.
O olhar para a água parada e escura não era convite a um mergulho. Hesitavam quando Zezinho inesperadamente atirou-se de cabeça na curva do arroio.
- Zezinho, este maluco!
O cronômetro fora disparado. Pelo ângulo de entrada ele foi ao obscuro da profundidade. Qual a unidade de tempo usaríamos, segundos ou minutos?!
O relógio dos dedos estava mais a mãos. Um, dois, três, quatro, cinco...
Olhei para Zezão, meu irmão mais velho, como a perguntar: - E agora, a gente faz o quê?
Seis, sete, oito, nove, dez...
Teríamos apanhado muito do sargento, chefe do destacamento policial, maior autoridade militar da cidade, um xerife era o nosso pai...; tanto Antônio quanto o padre da matriz, se necessário fosse, o único que talvez pudesse nos salvar.
Teríamos apanhado muito caso nosso amigo não fosse vomitado à tona depois de ultrapassado o tempo dos pulmões... depois de esgotado os músculos para o sobressalto das feições.
Embaraçado em folhalgas ele retornou para as teias de aranha, Zezinho ressurgiu ofegante.
Nós , os cúmplices, já respirávamos mais leves antes de retornarmos para casa.
Tanta hesitação quanto tanto êxito ficaram em nós como um segredo. Os marmelos e as gabirobas testemunharam a nosso favor...no suntuoso fórum da natureza.