Em um dia do inverno de mil novecentos e oitenta e dois estavam ali perto do Pontilhão, na madrugada congelante de Barbacena, aguardando o caminhão da cooperativa. A rota leiteira serviria apenas a um deles, ao morador da zona rural de Prados. O outro esperaria, no mesmo ponto, o ônibus no horário comercial via Barroso até Dores de Campos. Um conhaque seduziu as úvulas e rasgou-se pelas traqueias.
Os novos soldados e futuros sargentos queriam chegar em casa uniformizados de orgulho, após o estágio inicial de provação.
Onde paramentar-se-iam, sacando o paisano?! As opções estavam na estrada, no ônibus da Sociedade dos Alunos, que seguia desde Guaratinguetá até Belo Horizonte; ou em algum banheiro de algum bar aberto aos boêmios da noite fria. O Ponto Rodoviário combinado ao embarque e desembarque na Cidade das Rosas era o Jardim do Globo.
"Quando o parça sentou praça
A Praça da Liberdade
Já era o Jardim dos Bobos."
Poesia antes que tardia. Um deles atrever-se-ia na arte literária.
Quando as ondulações das montanhas, e os verdes das matas, e vermelhos barrancos fizeram-se mais acentuados, mais que familiares, acudiu ao cordão que sinaliza o pedido de próxima parada ao desembarque, antecipada para o início da área urbana: isto mesmo, ele programou desfilar pela frente da escola primária que estudou, até o centro, até a Praça da Figueira , até chegar em sua casa...trajando o azul baratéia!
— Corre Maria, acode na janela, vem ver o filho do Sargento!
Das venezianas do grupo escolar, vozes em coro debulhavam a cartilha.
— Será que o outro companheiro pensou e fez o mesmo, lá da boleia do caminhão do leite? Alguém teria que descer para abrir a porteira. O irmão poderia ser visto antes da capoeira, arrancando as batatas da boa safra…
— Baratéia não refere-se à cor mas ao debuxo, ao projeto do entrelaçamento dos fios do tecido, com barras e ondas; há um texto lá na Academia de Letras, do Evanildo Bechara ...explicava o mecânico de aviões ao rádio operador, comandante da estação, do destacamento da fronteira.
Os radiofaróis eternos , em outras dimensões, seguem capitaneando as agulhas de nossas bússolas; sendo frequência constante de nossos receptores corações; sim, falo dos avós e pais que orgulharam-se dos netos e filhos, dos nossos brios.
Basilares! Pilares!
Muitos balizas, muitos marcadores pela Amazônia Verde, Azul até desembacarem num abraço quarenta e dois anos depois.
— Puxei a cordoalha. Avisto o Morro do Cruzeiro, Morro do Cristo. Vou descer no próximo ponto. Saudações aos familiares!