SOLANGE
A. representa o artigo que “gera o feminino”
e as vozes de várias mulheres...
Alba, Altair, Alda, Altamira, Antonieta...
Dedicado em especial a Alba Valéria,
verdadeira proprietária de Solange!
O rito é o que nos diferencia. Enquanto uns imitam o pão e o repartem, outros o fabricam ortodoxamente. O santo muitas vezes nem tem o mesmo manto. Destas dessemelhanças surgiram outras tribos, outras nações; outras culturas geraram-se em outras terras. Assim também, ávido, diverso e fervoroso, era o viver no Bairro da Liberdade. Berço de cultos por um caminho que se fez, tijolo a tijolo, pelos contornos e nuances das histórias das famílias que ali viviam.
A. nasceu em uma daquelas casas em um dia acalorado, no tempo em que as doulas eram as tias. Chorou menina como todas as outras e assim, igualmente aos outros irmãos, trouxe esperança e alegria renovadas. Ao ofertar um seio vasto, a mãe heroína trançava em seus pensamentos um futuro glorioso para a sua pequena. Antecedia a estas nossas protagonistas e contemporâneas uma geração orgulhosa de fateiras.
Segunda-feira, 14 de setembro de 1964
Apegaram-se desde o primeiro dia. Foi um presente da sua mãe pela passagem do seu quinto aniversário. O carinho entre A. e Solange começou imediatamente, na esquina da feira da Lima e Silva, no mesmo dia do
batismo da bípede emplumada. Nenhuma das duas crias criam, ou melhor, imaginariam que seria possível tal amizade. Criança e bicho... Quando soou a voz —“Solange” — fez-se o laço natural, a pinta piou alegrias, abriu-se um horizonte cheio de confidências, intimidades e aventuras, ou melhor, travessuras. Sim, o que não era Lima e Silva era Duque de Caxias, como a rua e a escola do bairro. As influências militaristas ganhavam das civilistas nesse tempo de calçamento da Estrada das Boiadas! Os nomes dos heróis e heroínas, negros e negras, estavam adormecidos nas letras, escondidos nos livros, vivos, todavia, nas filas, nos gritos, nas veias.
Terça-feira, 02 de fevereiro de 1965
Onde fosse, lá encontraríamos elas. Havíamos que considerar a dupla como inseparável! Acompanhada de sua escudeira, com pedigree de terreiro, a pintinha foi ganhando cores e liberdades à medida que cresciam as suas penas. Cabia à A. cuidar, prover, debulhar, triturar, limpar a casa. A. também separava os talos das couves e cortava os em cilindros, que eram aparados no prato de esmalte. A água transbordava do vasilhame de plástico, que fora do achocolatado, da torneira até chegar trotando pelas sandálias ao canto das refeições. Por uma lata
transfundia-se a água, pelos vasos comunicantes, até o prato; do prato ao bico da ave, a sede à fonte.
Entre os cacarejos céleres, ouvia-se:
— Eu já falei que não quero ver minha tesoura de costura no quintal! — abrandava a mãe ao perceber uma atividade que passava a virar rotina.
A tesoura e a máquina de costura andavam paradas ultimamente. Tudo seria herança da avó de A. para a mãe
de A. Lutou a matrona em seus discursos, ensaiados em casa, a favor de obter os registros, os documentos para
poder ter acesso ao INPS. Aprendeu a assinar e ler o nome no MOBRAL, orgulhosa por ter sacado a sua primeira
carteira de identidade. Promoveu debates com as amigas da comunidade da igreja sobre o avanço em poderem elas, mulheres, usarem calças em vez de vestidos.
— O padre disse no sermão sobre mulheres que vestem calças. Como assim?! Se ele veste saia e não é
mulher! Pode isso?!
— Ora, posso trocar de paróquia assim como posso trocar de padre!
Organizou-se a procissão das devotas para o dia da Adoração. Com suas fitas vermelhas cruzadas decotando os seios, aguardavam o chamado do sino. As calças, estampadas em chita, foram talhadas e cerzidas como se fossem bandeiras da rebelião! Mediante o clamor do séquito, ao padre, encurralado e sem mais recursos, coube apenas praguejar uma absolvição. Dessa nova estirpe, desses embates, a educação de A. pretendia seguir pelo exemplo.
Quarta-feira, 17 de agosto de 1966
A. desfilava por entre as bancas de frutas com sua já franguinha de estimação por debaixo do braço. A mãe não aprovava o cortejo e este era o problema menor. Os olhares que elas atraíam, estes sim; a mãe cuidava para
que invejosos não secassem a sua pimenteira. E banhos e folhas e guias e bênçãos sobravam da sala à varanda,
da cozinha ao terreiro. Solange tinha passe livre do terreiro até a varanda por dentro da casa, ou pelas laterais, se não estivessem obstruídas. Uma vassoura a espantava principalmente quando ela sujava o piso vermelho com sua larva cinza branca. Os predicados recaíam em A., por permitir que tal liberdade atingisse o caminho das visitas.
— Abacaxi só depois da Conceição! — A mãe de A. respondia com seu bordão, cópia fiel do refrão da sua mãe, quando a oferta dos feirantes era maior que a procura. Como podemos conceber meninas brincando na
ladeira de barro, apostando corridas de xixi?! Se a mãe soubesse!
— Graças!
— Das poucas testemunhas da competição, uma era Solange. Caso fossem meninos os competidores, seria natural?! Aceitável?! Menos absurdo?! O caminho dos líquidos formava um vale, um sulco na terra revolvida, até ainda há pouco virgem de sol. Brincar na rua já era uma liberdade que a cidade começava a proibir. Muita gente desconhecida transitando, carros, obras... A Ladeira do Inferno era a mais íngreme, decorada com matos onde eram despachadas as oferendas às sete escravas. Ali encontraríamos, em um futuro próximo, um Plano Inclinado.
Quinta-feira, 16 de novembro de 1967
Num belo dia, A. apareceu na porta da cozinha depois de correr. Ainda ofegante, disse:
— Mãe! Solange não está no quintal.
A busca pela manhã não deu em nada e a preocupação encaminhava-se pela rua, quiçá pelas mãos de um larápio, ou um acidente na etapa nova da estrada... A despensa era extensão da cozinha ou do quintal, não seria sábio precisarmos. A descoberta: por trás dos papéis preservados para reutilização, um belo ninho com uma dúzia e meia de ovos dourados!
— Vou dar logo um jeito nisto!
— Como esta galinha foi parar sobre o armário, acima do conjunto de panelas?! Entrou, certamente por aquela janela! E foi aquela correria, penas flutuando pela cozinha.
E lágrimas, entre choro e palavras:
— A senhora falou que não era para usar a sua tesoura com outras coisas, mas a senhora usou!
A. chorou uma asa inteira o que foi apenas um aileron. Parecia doer na menina a cada estalo dos dedos da tesoura... a cada... cada... pena. Doeu na mãe relembrar quando retrucou pela primeira e última vez à sua própria mãe. Lembrança que remoeu pela ausência, esta mão tão pesada! Como penas de uma só das asas, para impedir o voo, foram decepadas, logo, logo, a pioneira retomaria sua epopeia. Os ovos descobertos tomaram seu destino. As gemadas matinais preencheram o cardápio de uma semana.
Sexta-feira, 8 de março de 1968
Os pesquisadores de hoje, os modernos, avaliam a capacidade aritmética das galinhas. Vissem A. e Solange na mesa fazendo o dever escolar teriam subsídios relevantes para a conclusão do estudo, para a abertura de novos horizontes do saber, para o progresso da ciência! Nos primeiros anos, a menina contava nos dedos, olhava para a ave que piava, e era anotada a soma ou o total. Nos anos posteriores, havia uma ladainha, uns instantes de precisão, de apuro, e Solange cacarejava o que era o produto.
— Três vezes três... — Era um diálogo entre os dois seres eucarióticos, sapiens.
Foi ela escondida na mochila para o dia da prova, cheia de recomendações, para não ser descoberta. A professora não percebeu, na carteira escolar do canto, o que se passava. Soletrando os números, enumerando as letras, alguns pios e cacarejos.
— Dez!
Foi o resultado do teste de matemática. Seria, entretanto, o último em dupla, em combinação. No intervalo, um dos meninos descobriu a ave, que fugiu ao pátio do recreio. A algazarra sucedeu-se...
— Pega! Pega! — gritavam.
A bola e a galinha eram disputadas no torneio. Ao ver sua amiga e confidente ser perseguida pelos meninos, A. lançou-se ao resgate, postou-se à frente, empurrou dois que se bateram e acolheu, como uma goleira, em seu colo, sua já ofegante camarada. Uma vez revelada a identidade da intrusa, as incursões
posteriores da ave na escola foram proibidas pela diretora. Prevaleceram e permaneceram intactos, em segredo,
os parabéns no boletim de notas.
Sábado, 19 de abril de 1969
Choveu bastante na noite de sexta para o sábado, e o barulho das telhas caindo alternou-se com os cacarejos
e batidas de asas. O poleiro, o galinheiro todo veio abaixo com o peso da água acumulada nas telhas e folhas
do abacateiro. Pouco depois estava A. abraçada com Solange, envolta em uma toalha de rosto, a ave ainda com suas penas umedecidas pelo temporal.
Domingo, 21 de junho de 1970
Em uma geração a moela era separada para o marido. Na outra, a cozinheira fazia logo seu prato com os melhores pedaços, sem cerimônias e por direito. Na próxima, as crianças queriam a forquilha do peito, que, após secar ao sol, seria o fiel de uma disputa. O meninismo ditava suas regras: aquele que comer do coração de um passarinho ficaria bom de mira.
— Então deve ser por isso que Maria Quitéria conseguiu firmar-se no Batalhão! — retrucava sarcasticamente A., associando a história do bairro, da cidade, do estado e da nação, puxando a brasa para a sua sardinha. Com uma ave da geração anterior deixaram o tempo passar por demais. O endurecimento da carne somente fez aumentar o tempo de cozimento — com o preço do gás nas alturas! Sem o efeito desejado. Solange, entretanto, estava tenra, no tempo certo, e o cálculo, a medição da intimidade, dos afetos, anunciavam dias difíceis para a filha sem a fiel companheira. As conversas preparatórias não avançavam muito bem. A mãe esperou A. sair para cometer o “galinicídio”; ao molho pardo, pois este era o ponto vulnerável da filha! Para o almoço de domingo, durante o jogo do Brasil, após a missa...
— Tripla crueldade!
Saliva e lágrimas temperaram os rudes sentimentos.
Aguçaram-se, sobretudo, os sentidos. Comeu-lhe o coração.
Uma exímia contadora formou-se, celebrou-se em A.
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Foto Flickr de Dimas Soares Ferreira