× Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Calo ou Falo
Este corte,/ A boca, /Meu melhor açoite;/Sangra palavras!
Textos
A GRAMA
O fato ocorreu como contaram. As nuances , os detalhes é que foram apimentados. E como quem conta um conto aumenta o encanto, sentemo-nos no jardim:
A grama cresceu dona da casa, ladeando a via da rua até a varanda. Ora ofegando as margaridas, ora desafiando os espinheiros, lançavam-se elas, as folhas, com a intenção de suplantar, em número, a quantidade de suas próprias raízes. O verde vivo fazia seu degradê até chegar ao amarelo seco. Assim que o jardineiro decidiu iniciar os trabalhos de aparar o excesso, já era metade da tarde do dia. O sol inclemente aproveitava a sombra dos ângulos e uma brisa agora então soprava, inclinando a luz sobre os arbustos.
Osvaldo leu a listagem de cheques da sua nova máquina cortadora de gramas  e adiantou-se em procurar a fiação elétrica que atendesse ao maior raio possível. Selecionou, na posição confortável do boné, sua disposição em terminar a tarefa antes da vertigem da noite. Osvaldo acionou os motores e com seu equipamento individual de proteção, começou a desfilar por entre as azaléias.
Exalou-se no espaço os gazes da fotossíntese. A clorofila exposta chorava ao som da orquestra elétrica do aparador. Quando o som se fez ouvir nas janelas da casa vizinha, uma senhora acudiu a ver o que se passava, movida pela sua intenção de descer as escadas e, lá fora, poder conversar com o imprevisto jardineiro. Ela queria reparar uma aparagem sobre  suas bromélias.  Já adiantando seus passos,  contritos pela idade, ela devia ter uns setenta anos, dirigiu-se ao profissional da podagem.
A roçadeira fez uma pausa para tornar compreensível o diálogo que se processou. Estes foram os termos:
- Boa tarde, moço! Eu queria pedir ao senhor para poder terminar de cortar uma grama aqui nesta parte da direita, perto das bromélias. Semana passada veio um rapaz mais jovem - esses jovens de hoje! Ele não voltou mais.
-Ah!  Entendo senhora.
Osvaldo fez uma pausa para compreender a missão e passando-se por mais que prestativo, demonstrava interesse e exigia mais detalhes da operação.
A boa senhora teceu comentários sobre a primavera, sobre a água, sobre as crianças que correm sobre as flores. Ela chamou todas as plantas pelo nome de batismo. Declinou o nome de guerra de seus netos, dentro da hierarquia de datas de nascimento. Os assuntos desfiaram-se como se todos, os vegetais e as crianças,fossem íntimos do então recém encontrado e oportuno hortelão. Afastou-se ela, ansiosa pelos resultados e fez-se de ausente para poder colher mais rapidamente seu intento, apressando o atencioso feitor das aléias.
- Se o senhor puder começar logo, em vez de ficar me olhando, eu agradeço!
- Certo. Certo. Pode deixar que farei o que a senhora deseja.
Os odres de barro e uma bola de futebol fizeram ala para a próxima corrida do aparador.  A cerimônia em vai-e-vem retomou seu ritmo, enchendo o estádio de esperanças, de cores realçadas e de sons insistentes. Os insetos, todos de mudança forçada pela perda da sua folha predileta, esvoaçavam o céu em nuvens.
A vila militar tinha suas casas iguais separadas, nas fronteiras dos lotes, apenas pela jardinagem. As quadrículas esgueiravam-se em alamedas enfileiradas de árvores maiores. De paredes brancas, as casas pareciam com a tropa engalonada em desfile. A base aérea aguardava seu novo comandante da região e naquela semana era a data de apresentações dos oficiais do estado-maior ao seu novo líder.
No dia seguinte, perfilados em suas platinas, cada um declinava seu nome e chefias em que estavam designados. Assim, em atitude, gesto e duração, seguiam-se as falas:
Tenente Coronel Bezerra, Gestor de Víveres.
Major Lucas, Comandante do Batalhão Águia
Major Cardoso, Chefe da Imobilizadora
Capitão Dentinho, Chefe da Odontologia...
Um deles, porém, não podemos dizer temeroso, estava mais sudorento. O Major Jailson  expôs sua patente e oficina, gaguejando nas frases. Pediu desculpas por sua mãe ter abordado, sem identificar no homem negro, o General Osvaldo, esperado chefe divino. Este, em sua tarde de testes da sua ceifadeira importada de gramíneas espontâneas e brasileiras recebera, daquela caridosa e bondosa senhora, sua descompostura de boas vindas.
O Excelentíssimo Aníbal, o cartaginês, incorporado e apaziguado em tez ao Generalíssimo Cipião, o Africano, acatou o pedido do trêmulo centurião - dom de poder é o perdão - mas em atitude repreensiva e exemplar, à frente de todos fez lavrar o seguinte despacho:
Ordem-do-dia vinte de novembro de 2011.
Decreto seja libertada de sua inconsciência prisional, Margarida Flores Cacos Entreflores, vítima que fora dos sistemas educacionais brasileiros e outros importados, e faz saber à toda a região aérea da sua decisão. Como pena leve, aditiva e benevolente recomenda que os contos da série cadernos negros sejam recitados por aquela, agora liberta senhora, aos seus netos, sob a sombra e pelos gramados da vila militar.
- Sua mãe pareceu-me bastante educada. Dê a ela os meus cumprimentos. Já que seremos vizinhos alerto que meus filhos também querem ser jogadores de futebol e você deve-me setenta reais pelos caqueiros encontrados mais duzentos reais pelos serviços de jardinagem. Pague-me com brevidade.

Os cáctus, as coroas-de-Cristo, as rosas, as dálias, testemunhas que foram, cada uma das plantas editou também a sua versão sobre o fato. Aqui, do que me contaram e apreendi, eu simplesmente delato.
  
CADERNOS NEGROS 34- Quilombhoje-São Paulo-2011
Luís Aseokaynha
Enviado por Luís Aseokaynha em 17/11/2014
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários