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JOGO DOS SETE ERRES
A aviação civil comete erres diferentes daqueles da aviação militar. Senão, vejamos se consigo chegar ao meu tema sem derivar muito. Meu objetivo final é transmitir como, posso dizer, que pousei um avião sem ser piloto ou estar nos comandos. Para isso, entretanto, eu estava a bordo, como terceiro tripulante.
Naqueles dia tínhamos um Bandeirante na Base, chamado de "Cadeirinha" pois transportar passageiros não é exatamente uma função da aviação militar. Os aviões do esquadrão de patrulha, podemos dizer, eram destinados aos exercícios de guerra sobre o mar e tinham seus Bandeirulhas não tão bem equipados com poltronas.

Assim,o corpo de pilotos também era o administrativo. Um quadrimotor certamente tem um engenheiro de voo. O monomotor Caravan militar leva seu mecânico a bordo.  O terceiro tripulante é comum a todo bimotor bandeirante militar e outros tripulantes também compunham a equipe, como o operador de radar- o fotógrafo, o operador de sensores acústicos, o especialista em armamento. Um bandeirante armado assusta o mundo civil. Pois bem , notificado de que seria o mecânico de um voo de Salvador a Guaratinguetá, com retorno por Barbacena, minha alegria seria em rever os parentes. Eu participava nesta época das duas escalas de voo. Relembro que a tripulação mínima na aviação civil para um Bandeirante Cadeirinha sempre foi de dois pilotos.
Desde a notificação e pre-voo percebi a conversa dos pilotos preocupados em proceder o voo , quem pousaria em tal campo, quem faria a segunda perna, o procedimento em Guaratinguetá, rodeada de serras...mas os erres eram outros.
Seguimos, atingiu o torque de decolagem, o café atrasou um pouco, e creio, haviam poucos passageiros, na carona. Pousamos sem sobressaltos no campo das Três Garças.
A meteorologia dava uma bela vista das Serras do Mar e da Mantiqueira, dentre elas o Rio do Milagre serpenteava.
Próximo destino, quem iria pousar? o tempo estava aquém e o procedimento é um NDB- um rádio farol não direcional. O aeródromo de SBBQ não tem torre- funciona como sala de informação de voo, a navegação é feita pelo piloto.
A função em voo de um mecânico de voo, em um Bandeco, além de servir o café e acessorar os pilotos e passageiros, está em monitorar os instrumentos. Um deles em voga é o liquidômetro. Aquele que marca quanto de combustível eu tenho, e por conseguinte, a  autonomia. Sua importância é relevada ao desprezo quando voamos com "liquidômetros não confiáveis", escrito no relatório. Escrito ou não, posso dizer que a maioria dos aviões tem este "defeito". Saber da falha exige outros recursos como calcular pelo totalizador, calcular pelo marcador do caminhão do abastecedor...Imaginar um consumo é voar às cegas. Desconhecer o " Fuel Log" em voos acima de seis horas ou à 500 milhas de uma pista, ou desprezar o "Howgozit" a 1000 milhas de um campo de aviação é como tatear no escuro. Recentes acidentes não trouxeram isto à tona: o acidente com o Luciano Huck e o acidente da Chapecoense levaram à pane seca. É preciso, claro, ter o equipamento de calibragem, abrir o tanque, seguir as limitações, as tolerâncias- parar a única aeronave da empresa...etc.
Tanto os impedimentos como as impedâncias devem ser recicladas pela manutenção ou o conjunto pedirá, para fechar um acidente , apenas mais um erre humano. As varetas dripless só funcionam bem no solo. Bem...

Retornando à nossa rota...

Mas o altímetro começou a dar dicas de que o solo estava perto. Pela minha aventura no Aeroclube da Cidade das Rosas eu sabia onde era Antônio Carlos. Pela minha experiência, via o altímetro e sabia a altura do campo. Dificultava as nuvens e o NDB.
O que eu não sabia era qual a  Santa que regia e emitia em todas as direções, da Igreja da cidade de Antônio Carlos, pois assim que a vi, no través direito, pela minha janela lateral, corri a checar o eixo das ordenadas.  Ao retornar ao través , avistei o eixo pista 45 graus defasada da nossa aproximação final. Sob nuvens, precisamente. Acionei tocando imediatamente  nos ombros dos pilotos, indiquei a pista, eles entreolharam-se, seguraram os comandos e giraram acentuadamente até à cabeceira.
- Gracias por los vetores, Señora!
A rota anterior, em frente, poderia nos guiar ao Monte Mário, mais alta elevação da região. Não queríamos isto. Uma mãe, sem que eu avisasse a chegada, aguardava-me. Eu, comigo- respirei o ar rarefeito e disse: "- Eu pousei o avião!". Eles nada disseram-me. Os Majores eram do país azul e foram para a sala confabular sobre se o cartão de voo por instrumento deles estava válido; o intervalo entre as viagens era grande na base administrativa.

Eu reassumi meus afazeres de pós-voo, feliz!  Solei instrumento no Aeroclube onde havia voado umas vinte horas de Aero-Boero.

Encontrei minha mãe no caminho a pé para casa.
Luís Carlos Oliveira Aseokaynha
Enviado por Luís Carlos Oliveira Aseokaynha em 16/04/2017
Alterado em 18/04/2017
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